Em um campinho de terra na zona sul, consertar a trave mostra os desafios da periferia, do esporte e do “país do futebol”
As traves do campinho dos Meninos do Brejo, na periferia da zona sul de São Paulo, estão quebradas. Ademilton Alves, o Lelê, que lidera o projeto desde 1998, corre atrás de uma trave nova. Se não conseguir, ele e os vizinhos improvisarão com madeira e cano de PVC, mostrando que, pelo menos nas quebradas, a criatividade ainda é uma marca do futebol brasileiro.
O gol precisa estar em pé no dia 26 de outubro, quando será realizada a festa do Dia das Crianças, que foi adiada. Se as traves novas não chegarem, o conserto está feito na velha. “Se você olhar a madeira que usamos, é ainda mais resistente, é peroba. Enterramos bem no chão, depois encaixamos a trave por cima, dentro da madeira. Por fora, é cano de PVC”, explica Lelê.
Ele é um obstinado que vive pelo Meninos do Brejo. O projeto social ocupa o terreno que era um chiqueiro. “O chão era bem adubado, nasceu muita grama. A gente colocava a trave, o dono vinha e tirava, mas acabou desistindo porque cuidamos do espaço. É o único terreno que não foi invadido. É tudo o que as crianças precisam”, diz o coordenador.
O plano A e o plano B das traves
“Minha esperança é um cara que conhece o pessoal da subprefeitura, é o plano A. Eu não desanimo nunca, jamais, tenho que pensar no que eu vou fazer pelas crianças. Se eu ganhar uma trave nova, bem; se não ganhar, juntou eu e meu parceiro e reformamos, está toda parafusada, precisa ver”, orgulha-se da gambiarra.
A questão das traves é uma das mais sérias nos campinhos de quebrada. De madeira ou bambu, duram pouco; de ferro, beiram o profissionalismo. “A trave que quebrou é a do campo grande, são três no total. Antigamente eram de madeira e precisavam ser trocadas a cada dois anos, pois o eucalipto não durava muito. Esta de ferro foi trocada três vezes”, explica Lelê.
Apesar do conserto, a trave ficou balançando, e foi necessário um novo improviso. “A gente pregou uma madeira no travessão e escorou atrás. Ficou firminha”, conta Lelê. Nos corres pelo conserto, ele passa mensagens, aciona quem conheça alguém do poder público, fala com vizinhos, vai nos comércios, busca peças no ferro-velho.
Fonte: Terra


