Fuga de Flávio deixa grupo de Lula mais forte

A decisão de Flávio Bolsonaro de fugir do país é mais um grande tiro no pé do bolsonarismo. Seus aliados ficam obrigados a inventar justificativas, muitas vezes esdrúxulas, para um ato de pura covardia.

Flávio prometeu permanecer no Brasil e organizar a oposição, mas desembarcou nos Estados Unidos nesta quarta-feira, 28. O senador havia sido intimado na segunda-feira a entregar seus passaportes e estava proibido de deixar o país.

A contradição dispensa grandes exercícios de interpretação. Quem pretendia liderar o Brasil acaba de abandonar o terreno no qual precisaria demonstrar capacidade de liderança.

O bolsonarismo pode tentar transformar essa retirada numa nova campanha de radicalização. Encontra, porém, um país diferente daquele que saiu das urnas em 2022 e conhece os resultados da aventura golpista que culminou no 8 de Janeiro.

As instituições resistiram e os responsáveis pelos crimes foram julgados e punidos. A disposição para repetir aquela experiência precisa enfrentar agora o conhecimento de suas consequências, inclusive para quem acreditou que ficaria impune.

O ressentimento continua visível, mas também expõe a pobreza política de seus porta-vozes. A Folha registrou publicações de bolsonaristas promovendo boicotes e defendendo a demissão de trabalhadores identificados como eleitores do PT.

O vereador Guilherme Kilter, eleito deputado federal pelo Paraná, chegou a divulgar a frase “Demitir petista, gostoso demais”. O prazer anunciado em prejudicar o sustento de outra pessoa revela uma política incapaz de aceitar que trabalhadores tenham vontade própria.

Esse sectarismo pode arrancar aplausos dentro da bolha, mas cobra um preço fora dela. Quem pretende conquistar a maioria do país não amplia sua credibilidade comemorando a possibilidade de castigar quem votou no adversário.

Lula sai dessa sequência fortalecido, antes de tudo, porque venceu. Seus 64.256.232 votos representam um resultado mais amplo do que o obtido em 2022 e conferem autoridade política à construção do próximo mandato.

A tentativa de desqualificar a eleição com a prorrogação do horário de votação enfrenta fatos especialmente inconvenientes. As duas campanhas pediram mais tempo para votar, embora o bolsonarismo tenha passado a atacar a medida depois da derrota.

Segundo o TSE, 34.393 votos foram registrados após as 17 horas no segundo turno. Esse total não corresponde necessariamente a votos produzidos pela prorrogação, porque eleitores que já estivessem na fila também teriam direito a votar.

Ainda assim, a comparação dá a dimensão da fragilidade do argumento. São dezenas de milhares de votos diante de uma diferença de milhões entre os candidatos.

A decisão tardia de Cristiano Zanin pode e deve ser criticada pela confusão que produziu quando o encerramento da votação já estava em curso. Transformar essa crítica em prova de fraude exige um salto que os fatos não sustentam.

A cada tentativa de reabrir artificialmente a disputa, o bolsonarismo precisa explicar por que uma providência solicitada também por sua campanha se tornou intolerável apenas quando Lula ganhou. A derrota nas urnas passa a ser acompanhada pelo desgaste de argumentos cada vez menos convincentes.

O refúgio americano tampouco oferece a Flávio a legitimidade internacional que seus aliados gostariam de anunciar. O governo Trump confirmou a emissão de vistos, mas esse anúncio não equivale à concessão formal de asilo político.

O deputado democrata Joaquin Castro criticou a iniciativa e cobrou explicações de Trump sobre seu papel na saída do senador do Brasil. Os democratas da Comissão de Relações Exteriores da Câmara americana também atacaram o tratamento dispensado a Flávio pelo governo Trump.

Essa reação mostra que a proteção oferecida ao brasileiro está longe de representar um entendimento bipartidário. Flávio se vincula a um governo específico e às conveniências de um presidente que enfrenta dificuldades em seu próprio país.

A pesquisa NPR/PBS News/Marist divulgada em 27 de outubro deu aos democratas 52% das preferências para o Congresso, contra 44% dos republicanos, entre os eleitores prováveis. Nesse mesmo grupo, 59% desaprovavam Trump e 40% o aprovavam.

O levantamento não determina o resultado das disputas estaduais e distritais, muito menos antecipa quem controlará o Senado. Mostra, entretanto, o risco da aposta de Flávio num protetor politicamente desgastado às vésperas das eleições legislativas.

O STF também sai fortalecido desse episódio. Quando Alexandre de Moraes exigiu a entrega dos passaportes, Flávio reagiu dizendo que não pretendia deixar o Brasil.

Sua saída oferece um argumento concreto em favor da cautela que o próprio senador havia apresentado como uma perseguição sem fundamento. O comportamento de Flávio enfraquece sua defesa política e reforça a necessidade de cumprimento das decisões judiciais.

Enquanto o adversário procura proteção no exterior, Lula trabalha na montagem de sua base parlamentar. Na segunda-feira, recebeu Hugo Motta e Davi Alcolumbre no Palácio da Alvorada, num encontro em que os presidentes da Câmara e do Senado reafirmaram o compromisso com o diálogo institucional.

O apoio de Lula à continuidade dos dois no comando do Congresso já vinha sendo discutido antes da eleição. A fuga de Flávio fortalece agora essa articulação, embora não garanta a reeleição de Motta e Alcolumbre.

O Congresso conserva sua força própria e uma composição que exige negociação permanente do governo. Lula, porém, ganha espaço quando o principal adversário eleitoral troca a disputa presencial pela tentativa de comandar a oposição de outro país.

Flávio poderá gravar vídeos, fazer reuniões remotas e mobilizar seus apoiadores. Terá mais dificuldade para estar nas conversas em que se negociam apoios, se resolvem divergências e se constroem maiorias dentro do Congresso.

A distância física não elimina sua influência, mas reduz seus instrumentos justamente quando a política brasileira começa a reorganizar suas alianças. Lula permanece no centro das decisões, com um mandato renovado pelas urnas e disposição para negociar.

A fuga, portanto, acrescenta uma derrota política à derrota eleitoral do bolsonarismo. Flávio entrega argumentos ao STF, constrange seus aliados e facilita o trabalho de quem pretendia derrotar.

Fonte: diariodocentrodomundo


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